Numa de minhas recentes
fuçassões no Youtube, descobri ao acaso, um vídeo
de um filme que assisti a quase 30 anos atrás, no antigo Corujão da
TV Globo. Naquela época o filme me encantou, pela história que ao
final, fui descobrir, teria realmente acontecido. Nunca mais vi tal
filme ser exibido na TV, e como não o via em locadoras de vídeo, a
trama caiu em meu esquecimento momentâneo, e ao descobrir o video,
na íntegra, agora no Youtube, embora com qualidade um pouco ruim,
imediatamente assisti, relembrei e conjeturei: tem
muito haver com um assunto que me incomoda em demasia nos
dias de hoje.
A
formação de grupos racistas, homofóbicos e até de uma ideologia
político-religiosa. Às vezes, oculto atrás da bandeira de uma
"causa qualquer". O uso de slogans, palavras de ordem e a adoração
a um suposto "grande líder" se repetem na história da humanidade,
aconteceu na Alemanha nazista, na Itália fascista, e também no
chamado ‘socialismo real' da União Soviética, principalmente
no período stalinista, na China com a "revolução cultural"
promovida por Mao Tsé Tung, na Argentina com Perón, etc. Ainda,
recentemente, líderes neo-populistas da América Latina, valendo-se
de um discurso tosco anti-americano, conseguem enganar uma parte da
esquerda resistente a aprender com a história.
Indo mais além, lembramos grupos
extremistas que em nome de um ideal cometem crimes e mais crimes.
Foi assim com os atos criminosos da Ku Klux Klan, o macartismo que
desencadeou a "caça às bruxas", perseguindo todos os supostos
"comunistas" nos EUA, os governos de direita da América Latina com
traços totalitários como foi o de Pinochet (Chile), o regime de
apartheid da África do Sul (antes de Nelson Mandela), o
processo de "limpeza étnica" conduzida pelos sérvios nos
Bálcãs, os grupos neonazistas skinheads
espalhados pelo mundo, os carecas do ABC paulista, e o movimento
separatista do Iguaçu, no Paraná, entre outros menos conhecidos.
Também, os partidos políticos neonazistas abrigados no regime
democrático, na Áustria, chefiado por J.Haidern, e na França,
por Jean Marie Le Pen. Devem ser, ainda, incluídos os líderes com
traços protofascistas (Eco, 1995): Berlusconi, que passou pelo
governo da Itália, e líderes totalitários com traço imperial, como
King Jon Il (Coréia do Norte), Assad (Síria), ou de milícias que
ocupam o vazio do Estado (Hizbolá, Hamas, FARC, PCC) cujos atos
truculentos faz semelhança com tantos movimentos fascistas
italiano, espanhol, e mesmo o integralismo, no Brasil. No período
da ditadura militar, depois 1964, no Brasil, surgem grupos de
extrema-direita, como a TFP (Sociedade da Tradição, Família e
Propriedade) e o CCC (Comando de Caça aos Comunistas), ambos com
intenções de causar uma ‘onda' de captação dos jovens para a
sua luta ideológica e até terrorista. E sem esquecer de
mencionar os grupos de repressão que surgiram no Brasil da ditadura
militar, tanto nos quarteis militares, como nas delegacias de
polícia.
Para muitos membros de vários
destes grupos, nomes como os citados acima, e ainda outros, como
Hitler, Osama Bin Laden... não são apenas grandes líderes,
chegam a vê-los como deuses até.
E não
esquecendo também, que atualmente, grupos religiosos chegam bem
perto de atitudes segregacionistas e preconceituosas, ao ponto de
incentivar seus membros, ou fiéis, melhor dizendo, a atitudes
grotescas e extremistas. E muitas vezes a "fé cega" destes fiéis é
tanta que nem chegam a perceber o quão ridículos e desumanos estão
sendo. E não se iluda, isto acontece no Brasil também, muitos não
percebem, mas acontece.
No filme "A onda",
um média-metragem para TV(cerca de 45 minutos de duração) de 1981,
exibido apenas uma vez na TV brasileira(ao que me lembro), a trama
tem início com o professor de história Burt Ross explicando aos
seus alunos a atmosfera da Alemanha, em 1930, a ascensão e o
genocídio nazista. Os questionamentos dos alunos(especialmente de
uma aluna, que diz não entender como o povo alemão foi capaz de
admitir tal genocídio tão passivamente), levam o professor a
iniciar uma arriscada experiência pedagógica que consiste em
reproduzir na sala de aula alguns clichês do nazismo: usariam o
slogan "Poder, Disciplina e Superioridade", um
símbolo gráfico para representar "A onda", como
seria denominada a experiência.
O professor Ross se declara o líder
do movimento d'A Onda, exorta a disciplina e faz valer o
poder superior do grupo sobre os indivíduos. Os estudantes o
obedecem cegamente. A tímida recusa da mesma aluna que o questionou
anteriormente inicia um modesto processo de rebeldia. Porém a
escola inteira é envolvida no fanatismo d'A onda, até que
um casal de alunos mais conscientes(a aluna novamente e agora seu
namorado como seu aliado) alerta ao professor que ele pode ter
perdido o controle da experiência pedagógica que passou ao domínio
da realidade cotidiana da comunidade escolar.
A forma com que o grupo de alunos
assume a ideologia realmente chega a ser assustadora... lembrando o
início de um movimento nazi-facista, ou coisa parecida. Suas
convicções e atitudes durante o desenrolar do filme, preocupam a
ponto de sentirmos que ali nasceu o Neo-Nazismo, na década de 60,
na sala de aula de uma pacata cidade americana.
Enfim, como já fazia parte de seus
planos, a morte do movimento é dada pelo seu próprio criador, o
professor Burt Ross reúne todos os membros do grupo no auditório da
escola, prometendo, revelar-lhes algo maior ainda, e apresentando
um líder nacional d'A onda, e assim, diante da cega
expectativa de todos Burt desmascara a própria criação,
derrubando a ideologia totalitária que sustenta o movimento d'A
Onda, e num discurso(abaixo) que deixa a todos
perplexos e decepcionados consigo mesmos, denuncia o
sumiço do sujeito crítico diante do poder carismático de um líder e
do fanatismo por uma causa.
Diálogos finais do filme,
incluindo o breve discurso do professor Burt
Ross:
Aluno
-Não há lider nenhum, não é verdade?
Professor
-Claro que há, aqui está o seu lider.
(e mostra um video de Hitler
discursando)
e continua
-Ouçam com bastante atenção, não há nenhum movimento juvenil
nacional!
-Vocês pensaram que eram especiais, melhores que qualquer um fora
desta sala,
trocaram sua liberdade pelo luxo de se sentirem
superiores,
aceitaram a vontade do grupo acima de suas próprias
convicções,
nao importa a quem ferissem,
deixaram que isso fosse apenas um passeio, do qual poderiam
se desligar a qualquer momento,
mas para onde ruma-lo?, até onde vocês iriam?
-olhem para o seu futuro!
(e mostra novamente Hitler em discurso,
inflamante)
todos se
chocam
e ele continua
-é, todos vocês teriam dado bons
nazistas!
iam vestir aquela farda, virar a cabeça e permitir que seus
vizinhos e amigos fossem perseguidos e destruídos,
o facismo nao é uma coisa que outras pessoas fizeram, ele
está aqui mesmo, em todos nós!
vocês perguntam?
como o povo alemão pode ficar impassível enquanto milhões de
inocentes seres humanos foram assassinados?
como alegou que não estava envolvido?
o que faz um povo renegar a sua propria história?
pois se é que a história se repete vocês todos vão querer
negar o que se passou com vocês Na Onda,
mas se nossa experiência for um sucesso terão aprendido que
somos todos responsáveis por nossos atos!
e que vocês devem interrogar o que vão fazer ao invés de
seguir cegamente o líder,
e que pelo resto de vossas vidas
nunca permitirão que a vontade de um grupo usurpe os seus
direitos individuais,
eu sei que isto foi penoso pra vocês como foi para mim
também
mas é uma lição da qual partilharemos para o resto de nossas
vidas!!!
Embora o filme seja uma metáfora de
como surgiu o nazi-fascismo e o do poder de seus rituais, pôde
conscientizar os estudantes sobre o poder doutrinário dos
movimentos ideológicos políticos ou religiosos. Mas o mais
interessante de tudo é que o filme se baseia em fatos reais.
Esta experiência psico-pedagógica
realmente ocorreu, e mais, em uma escola tradicional de uma pacata
cidade norte-americana. A história original aconteceu em Palo
Alto, Califórnia, em 1967. Em uma aula de história do professor Ron
Jones, quando um estudante questionou-lhe sobre a responsabilidade
do povo alemão pelas ações do Terceiro Reich. O professor fez uma
pequena simulação para que os estudantes entendessem o que é ter
que seguir as instruções de um líder. No início, ensinou postura,
respiração correta, respeito. No dia seguinte, somou-se à
disciplina a noção de grupo. O mestre deu ao grupo um
nome - A Terceira Onda. Mais tarde, incluiu um
slogan, uma saudação, um cartão de "sócio" e até uma "polícia de
estudantes" para vigiar as ações uns dos outros. Chegou a fazê-los
acreditar que A Terceira Onda extrapolava a sala de aula,
e era um movimento que iria dominar o país. "Para
mim, como professor, era muito gratificante ver a maior parte dos
alunos se envolvendo, tomando as rédeas. Eles saíam para entregar
panfletos, agregar nomes. E aí isso explodiu", conta
Ron Jones, hoje com 70 anos, ao jornal Folha de São Paulo, em
uma entrevista dada por telefone, em 2009. "Em cinco
dias, o número de membros do grupo dobrou de 25 para 50. Fora da
classe, o movimento chegou a reunir mais de 300
adolescentes", segundo Jones, "e a
silenciar vozes dissidentes, à força. Uma
criança perdeu a mão construindo explosivos. Era uma criança
perdida, perigosa."
Foi aí que o professor
Jones percebeu que havia ido longe demais. Para decepção
geral, fez um discurso no qual revelou a farsa e apelou por bom
senso. Dois anos depois da "Terceira Onda", ele foi demitido e
proibido de lecionar em escolas públicas. Hoje, ensina poesia a
deficientes mentais, escreve e ministra palestras.
"Nunca faria isso de novo. Coloquei os alunos em
perigo. Esse tipo de experimento é útil para mostrar quão
facilmente nos tornamos vítimas desse tipo de coisa",
conta Ron Jones.
Quarenta anos depois, Ron Jones
cedeu os direitos de sua história, que já havia virado livro e o
média-metragem para TV, a Dennis Gansel, 35 anos. Muitos quiseram
fazer a adaptação para cinema antes, diz Jones. "A
diferença é que Gansel prometeu transportar a história para a
Alemanha atual". Foi o que fez. A nova história,
agora um longa-metragem para cinema, lançado em 2009,
A Onda, Die
Welle, se passa nos dias atuais, na Alemanha,
diante de alunos que não aguentam mais ouvir falar de Hitler, e
o professor, interpretado pelo carismático Jürgen Vogel,
retoma o projeto com fidelidade. Pequenas alterações atualizaram o
conto. Além dos panfletos, o grupo agora tem uma página no MySpace.
O professor agora mora em um barco e é fã dos Ramones. O desfecho
da história, ainda mais violento que o original, também foi uma
tentativa de acompanhar os novos tempos, segundo seu diretor, que é
neto de um soldado de Hitler e filho de militantes de esquerda.
Esta nova versão da
Terceira Onda, agora para o cinema,
embora eu ainda não tenha assistido, deve ser tão eletrizante como
a primeira versão para TV.
ASSISTA AOS FILMES E PENSE NISSO!
REFERÊNCIAS QUE UTILIZEI PARA ESCREVER ESTE
TEXTO:
-http://www.espacoacademico.com.br/065/65lima.htm
-http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u610047.shtml